Na África, Lula pede perdão por escravidão


Lula e Abdoulaye Wade, em visita à Casa dos Escravos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no último dia de seu giro pela África, esteve no Senegal e na manhã de ontem (14) levou uma oferenda floral a a “Memorial du Tiraileur” um monumento em honra aos ex-combatentes senegaleses mortos nas duas guerras mundiais. À tarde, antes de partir, visitou a antiga Casa dos Escravos na ilha de Goree, declarada pela Unesco patrimônio da humanidade. A ilha de Goree foi um dos pontos de saída de milhões de escravos que atravessaram o Oceano Atlântico para ser vendidos nas Américas.
A comitiva presidencial visitou o lugar e o presidente Lula, visivelmente emocionado, pediu em um discurso o perdão à África pelo regime de escravidão que, entre os séculos 16 e 19, capturou e levou milhares de africanos para o Brasil. Na ilha, foi inaugurada pelos presidentes dos dois países uma placa de “justo reconhecimento” pelo período da escravidão.
Em julho de 2003, o líder do regime americano, George W. Bush, também visitou a Casa dos Escravos. Na ocasião, assessores teriam recomendado a ele que se desculpasse pela escravidão. Os EUA foram a segunda nação do planeta a capturar e escravizar africanos. Em seu discurso, Bush apenas denunciou a escravidão como “um dos maiores crimes da história”.
Em um pronunciamento posterior, durante encontro com a comunidade brasileira residente no Senegal, Lula disse que “O que quero é que essas pessoas que governam os países africanos, o povo da África, percebam que nós somos um país de irmãos, que nós somos um país de companheiros, que nós somos um país que quer uma integração efetiva. Nós não queremos explorá-los, nós não queremos fazer escravos, nós não queremos tirar coisas deles, como no passado. Nós queremos repartir o pouco que nós temos com eles para eles repartirem um pouco do que têm conosco, numa política de fazer com que cresça o Brasil, cresça a América Latina e cresça o continente africano.”
Lula disse antes de embarcar para o Brasil que antes mesmo de ser eleito para o cargo, já tinha decidido resgatar a relação do Brasil com a África. “Não só porque somos devedores do que o povo africano fez por nós durante tantos e tantos séculos, mas também porque não era possível continuar admitindo que a África e a América do Sul nasceram para ser pobres”.
Durante encontro com a comunidade brasileira no Senegal, Lula destacou que o Brasil tem muito a oferecer no campo científico e tecnológico, especialmente nas áreas de agricultura e saúde. “Não que a gente tenha dinheiro, a gente tem conhecimento”, acrescentou. Questionado por jornalistas sobre a importância da viagem, respondeu: “fizemos o que tínhamos de fazer”.
A agenda do presidente ontem em Dacar incluiu a assinatura de acordos e a divulgação de comunicado conjunto. Um memorando de entendimentos firmado entre a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a ART (agência reguladora do Senegal) prevê a troca de experiências na administração do setor, com normas e padrões a serem cumpridos por operadoras e avaliação de tarifas e preços por prestadoras de serviço. Além disso, haverá intercâmbio de experiências em gestão de orçamento, recursos humanos e infra-estrutura. Também foram firmados acordos na área cultural e para supressão de vistos diplomáticos e de serviço entre os dois países.

Elogios à contribuição dos professores camaroneses nas universidades brasileiras

Segundo o comunicado final da visita a Camarões, Lula e o presidente Paul Biya destacaram as numerosas possibilidades de cooperação e as diversas afinidades entre os dois países, e expressaram pontos de vista coincidentes sobre a necessidade de promover as relações sul-sul.
Na Nigéria, maior exportador de petróleo da África, Lula concordou com o presidente Olusegun Obasanjo em relação à necessidade de formar uma nova associação política e econômica entre os países africanos e latino-americanos.
“O presidente Obasanjo conversará com os outros membros da União Africana para analisar a possibilidade de convocar uma cúpula entre os países sul-americanos e os africanos”, disse Lula pouco antes de partir para Acra, capital de Gana. Obasanjo exerce atualmente a presidência rotativa da União Africana.
Em Acra, Lula se reuniu com o presidente John Kufuor e inaugurou a sede da câmara de Comércio e da Indústria ganense-brasileira. Lula fez uma escala de poucas horas na Guiné-Bissau, antiga colônia portuguesa, para se reunir com o presidente Henrique Rosa, que exerce o poder interinamente até junho depois do golpe de Estado militar que derrubou em novembro do ano passado o governo de Kumba Ialá. Os dois presidentes discutiram a situação do país, que enfrenta uma grave crise econômica.

Fonte: Diário Vermelho