Encontro Nacional de Mulheres da Fenajufe alerta para os impactos da tripla jornada e política de metas na saúde das mulheres

O Encontro do Coletivo Nacional de Mulheres do PJU e MPU se encerrou neste domingo (26) após a apresentação de propostas construídas pelas representantes dos sindicatos de base da Federação e de contribuições para a criação de um protocolo de prevenção e enfrentamento a todas as formas de assédios e violências em eventos da Fenajufe. Pelo Sintrajusc, participaram as servidoras Cristina de Assunção, da Justiça Federal, também coordenadora do Sindicato, e Viviane Kaspary, da Justiça do Trabalho. A coordenadora Maria José Olegário, que também é coordenadora da Fenajufe, participou de modo virtual.

A iniciativa representa um marco importante para a Federação e busca garantir que as mulheres se sintam seguras em todos os espaços, incluindo aqueles destinados à organização coletiva e à luta sindical.

As coordenadoras Luciana Carneiro, Eliana Leocádia, Arlene Barcellos e Márcia Bueno organizaram a apresentação das propostas elaboradas pelos sindicatos de base, realizando a leitura dos textos e apontando os devidos direcionamentos.

Todas as propostas apresentadas foram acolhidas pela mesa e serão encaminhadas para análise da Diretoria Executiva. Posteriormente, os encaminhamentos poderão ser incorporados ao plano de lutas da Fenajufe, fortalecendo o compromisso institucional com a construção de ambientes seguros, respeitosos e livres de violência.

Por fim, o encontro reafirmou sua importância ao tratar de temas essenciais e ao se consolidar como um espaço de escuta e acolhimento para tantas histórias e vivências. Em meio a cantorias e discursos potentes, diferentes vozes e experiências se somaram em um propósito comum: fortalecer a luta das mulheres por melhores condições de vida e trabalho, pela liberdade e pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Abertura

A mesa de abertura foi composta pelas coordenadoras Soraia Marca Garcia, Luciana Carneiro, Márcia Bueno, Eliana Leocádia e Arlene Barcellos. Em suas saudações iniciais, as dirigentes destacaram que ocupar espaços historicamente dominados por homens é resultado de uma luta coletiva construída ao longo de gerações. Lotar um auditório com tantas representações femininas é a prova concreta da força das mulheres que vieram antes e das que seguem abrindo caminhos.

O início das atividades também foi marcado por força e emoção com a cantança feminista conduzida pela servidora Nara Santos, do Sindjufe/PB. Em um dos trechos entoados — “Eu sou, eu sou o que eu quiser” — ecoou a afirmação de autonomia e resistência das mulheres que ousam ocupar espaços antes negados.

O primeiro painel do dia trouxe o tema Feminismo e o movimento sindical: da criação de coletivos à paridade de gênero e à participação efetiva na luta contra o machismo e o patriarcado, reunindo as servidoras Lucena Pacheco, Magda da Conceição e Luciana Carneiro como palestrantes. As coordenadoras Arlene Barcellos e Juliana Rick conduziram os debates.

Em sua exposição, Lucena Pacheco resgatou o processo histórico de exclusão das mulheres do sindicalismo, lembrando que os movimentos sindicais surgiram em um contexto majoritariamente masculino, no qual as mulheres eram invisibilizadas e suas pautas ignoradas. Ela destacou que a ocupação desses espaços pelas mulheres é fruto de enfrentamento político e social construído ao longo de séculos. A dirigente falou sobre sua trajetória no sindicalismo, desde o início, com todos os desafios, reafirmando a importância da formação política e feminista dentro das entidades sindicais para incluir e empoderar as mulheres. “Eu não preciso ser um homem para ocupar esse lugar. Não importa o que digam. O nosso papel é ocupar e transformar esses espaços”, afirmou.

Dando continuidade à exposição do primeiro painel do dia, Magda da Conceição reforçou que sindicatos que não incorporam as pautas femininas acabam reproduzindo injustiças estruturais. Para ela, o protagonismo das mulheres precisa ser permanente e efetivo — não simbólico. “O sindicato que não incorpora as pautas das mulheres se coloca em posição de injustiça. Precisamos ocupar todos os espaços, com voz, voto e protagonismo real”.

Já Luciana Carneiro destacou a importância da construção de um feminismo interseccional dentro do movimento sindical, reconhecendo que as desigualdades se expressam de formas diferentes entre as mulheres. Ela ressaltou que o feminismo não é sobre antagonismo, mas sobre igualdade e justiça social, lembrando que muitas conquistas históricas — como direitos ligados à maternidade e à igualdade de remuneração, embora este muito recente — são fruto direto da luta feminista e sindical. “A nossa luta é todo dia. Não podemos aceitar silenciamento, não podemos aceitar machismo. Onde houver injustiça, precisamos agir.”

Após o primeiro debate, a Fenajufe fez uma homenagem às mulheres que construíram a luta das servidoras e servidores do PJU e MPU ao longo de mais de três décadas. Na Fenajufe, a paridade de gênero na direção executiva só foi aprovada no 11º Congrejufe, em 2022. Uma conquista histórica para toda a categoria do PJU e MPU, resultado da luta e resistência das mulheres da Federação.

Encontro alerta para os impactos da tripla jornada e política de metas na saúde das mulheres

Dando continuidade aos debates, o segundo painel do dia aprofundou um dos temas mais urgentes das pautas femininas: a tripla jornada e os impactos das políticas de metas na saúde física e mental das mulheres. As coordenadoras Márcia Bueno e Sandra Dias conduziram o debate, que contou com palestras de Ana Carolina Fleury, Isis Garcia e Ariene Virgínia.

A servidora Ana Carolina apresentou dados que evidenciam a desigualdade estrutural na divisão do trabalho doméstico e de cuidados entre homens e mulheres. Segundo levantamento divulgado em novembro de 2025, as mulheres dedicam mais de 10 horas semanais a mais do que os homens em atividades de cuidado não remuneradas. Quando analisado o recorte racial, a desigualdade se intensifica: mulheres negras dedicam, em média, 22,4 horas a mais nessas tarefas. Ela destacou que essa sobrecarga invisível caracteriza a tripla jornada enfrentada pelas mulheres: trabalho profissional, trabalho doméstico e trabalho emocional — não reconhecido e completamente desconsiderado pelas políticas institucionais.

Na sequência, Isis Garcia trouxe uma análise sob a perspectiva racial, destacando que mulheres negras são as mais impactadas pelo modelo produtivista e pelas políticas de metas. Ela ressaltou que, especialmente após a pandemia e a ampliação do teletrabalho, houve intensificação do assédio e da pressão por produtividade. Para ela, as políticas de metas impostas adoecem e, principalmente, as mulheres negras, que já enfrentam múltiplas violências estruturais.

Ariene Virgínia apresentou uma reflexão crítica sobre o produtivismo no Judiciário e o impacto das metas institucionais sobre a vida das mulheres servidoras. Ela destacou que a lógica de metas transformou o trabalho em um sistema de autoexploração, comparando-o a um processo de gamificação da produtividade. Para ela, a casa virou uma extensão da unidade judiciária. O modelo foi pensado a partir da figura do “homem provedor”, que trabalha fora e descansa ao voltar para casa. Mas quando a mulher descansa? Exigir o mesmo nível de produtividade sem considerar a tripla jornada é perpetuar desigualdades e aprofundar o adoecimento das mulheres.

Os debates evidenciaram que a tripla jornada e as políticas de metas impactam diretamente a saúde física e mental das mulheres, reforçando a necessidade de que as administrações reconheçam essas desigualdades e avancem na construção de condições de trabalho justas e igualitárias para as servidoras.

Debate sobre racismo, LGBTfobia, capacitismo e etarismo

Houve outros debates importantes sobre pautas urgentes, como o combate ao racismo, LBTfobia, capacitismo, etarismo e feminicídio. Os temas foram divididos em dois painéis, conduzidos pelas coordenadoras Luciana Carneiro, Arlene Barcellos, Sandra Dias, Kelma Lara e Eliana Leocádia.

O painel 3 teve como tema Racismo, LBTfobia, capacitismo e etarismo: é possível, numa perspectiva feminista, construir políticas de prevenção e combate unitário a essas práticas dentro dos tribunais?, com palestras de Ana Naiara Malavolta Saupe, militante lésbica feminista antirracista do PJU e ex-diretora do Sintrajufe/RS e Isabella Leal, coordenadora do Sintrajud/SP e servidora do TRT2.

Isabella Leal destacou que a deficiência é a única das opressões que pode ser adquirida ao longo da vida e que essa pauta tem sido historicamente deixada de lado. Ela ressaltou que uma pessoa pode adquirir uma deficiência a qualquer momento, seja pela idade, com doenças como artrose, ou por meio de acidentes. Para ela, trata-se de uma pauta que exige atenção, sensibilidade e compromisso coletivo com o aprendizado, reforçando a necessidade de letramento adequado, inclusive na forma como as pessoas são nomeadas. Nesse contexto, ressaltou que pessoas com deficiência não devem ser reduzidas a siglas, mas reconhecidas como sujeitos de direitos.

Na sequência, Ana Naiara apresentou um panorama sobre o papel das mulheres dentro desse contexto, a partir de uma lógica feminista voltada à construção de políticas de prevenção e combate unitário às diversas formas de opressão. Outro ponto relevante abordado foi a diferenciação entre pluralidade e inclusão, destacando que a presença de diferentes sujeitos nos espaços não significa, necessariamente, igualdade de poder. Ela reforçou que a busca pela equidade interseccional deve ser incorporada como pauta permanente, tanto nos tribunais quanto nas entidades sindicais.

Encerrando o primeiro dia de encontro, o painel 4 abordou o tema Feminicídios: educação antimachista e combate à misoginia como formas estruturantes de prevenção. Participaram como palestrantes Denise Carneiro, coordenadora de Comunicação do Sindjufe/BA e coordenadora licenciada da Fenajufe; Carla Ayres, vereadora em Florianópolis/SC e Marcela Prest, feminista negra, professora, mestranda em Educação pela UFBA, pesquisadora das Infâncias Negras e integrante do Movimento Mulheres Negras Decidem (MND).

A vereadora Carla Ayres destacou que as mulheres são plurais em suas lutas e que, em um mesmo espaço, convivem diferentes realidades e identidades, como mulheres negras, LGBTs, mulheres mais maduras, jovens e mulheres com diferentes corpos e trajetórias. Ela apontou que a sociedade capitalista impõe padrões que buscam padronizar a existência das mulheres e que essa padronização está diretamente ligada à lógica de utilidade dos corpos para a produção de mercadorias e força de trabalho.

Nesse contexto, ressaltou que corpos envelhecidos, corpos com deficiência — visível ou não — e corpos negros são historicamente desvalorizados dentro dessa lógica produtiva. Também destacou que políticas públicas, como a Lei Maria da Penha e o Disque 180, foram fundamentais para dar visibilidade às violências contra as mulheres e possibilitar sua identificação e enfrentamento. Para ela, a educação é ferramenta central para transformar padrões de masculinidade e combater o machismo estrutural.

Marcela Prest abordou a relação entre feminicídio, educação antimachista e misoginia, destacando que o capitalismo brasileiro está profundamente ligado ao processo histórico de colonização. A partir dessa lógica histórica, explicou que o patriarcado se consolidou como um sistema que impõe às mulheres uma condição de inferioridade social. Ela destacou, ainda, que a sociedade capitalista foi estruturada a partir da exploração e da divisão sexual e racial do trabalho, o que contribuiu para a naturalização de profundas violências contra as mulheres.

Denise Carneiro abordou as diversas formas de violência que atingem as mulheres em diferentes espaços e reforçou que o enfrentamento ao feminicídio e à misoginia não deve se limitar à punição legal. Segundo ela, a punição isolada não é suficiente, pois não devolve as vidas já perdidas, sendo necessário investir em ações preventivas e na identificação precoce de situações de risco.

A dirigente também apresentou dados alarmantes sobre o crescimento dos feminicídios no Brasil. Nos últimos 10 anos, estima-se que uma mulher foi assassinada a cada seis horas. Ela alertou ainda para a importância da educação antimachista e para a responsabilidade coletiva — incluindo a omissão masculina — como fatores que contribuem para a manutenção desse cenário de violência.

Os debates evidenciaram que o enfrentamento ao racismo, à LBTfobia, ao capacitismo, ao etarismo e ao feminicídio exige compromisso político permanente e a construção de estratégias coletivas baseadas na perspectiva feminista e interseccional. As reflexões apresentadas reforçaram a necessidade de fortalecer políticas institucionais e sindicais que garantam proteção, equidade e respeito às mulheres em toda a sua diversidade.

Políticas públicas para mulheres e desafios para uma sociedade mais justa

O último painel aprofundou a discussão sobre políticas públicas e caminhos para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

O painel 5 teve como tema Políticas públicas para as mulheres: desafios e caminhos para uma sociedade justa e contou com a condução das coordenadoras Arlene Barcellos, Luciana Carneiro e Márcia Bueno. As palestrantes foram Rosane Silva, militante feminista e sindical; Elcimara de Souza, militante do Movimento Mulheres em Luta e do PSTU e integrante da Comissão Pró-Fenajufe/DF; e Ana Paula Cusinato, militante da Marcha Mundial das Mulheres e também integrante da Comissão Pró-Fenajufe/DF.

Ana Paula iniciou o painel fazendo uma reflexão sobre a origem da necessidade de políticas públicas voltadas para as mulheres, que historicamente sofreram opressões. A servidora apresentou uma analogia com a “árvore do patriarcado”, sendo cada ramo um tipo de violência, enquanto o tronco representa o sistema econômico em que vivemos. Segundo ela, o capitalismo se sustenta dessas opressões e a raiz desse sistema é o patriarcado, uma grande estrutura que fortalece a exploração do trabalho.

A servidora ressaltou a importância de refletir sobre a posição das mulheres dentro dessa estrutura e destacou que o debate sobre a divisão sexual do trabalho é fundamental, uma vez que favorece os homens no acesso aos espaços de decisão, enquanto às mulheres recai, majoritariamente, a responsabilidade pelo trabalho e pelos cuidados.

Na sequência, a servidora Elcimara abordou os desafios relacionados ao tema, fazendo uma análise da atual conjuntura política diretamente relacionada às políticas públicas voltadas às mulheres. Ela destacou os termos “desafios” e “caminhos” como elementos centrais do debate e trouxe relatos sobre casos recentes de feminicídio, ressaltando o aumento expressivo desses crimes na última década.

Segundo ela, não é possível realizar esse debate sem considerar a luta pela própria sobrevivência das mulheres, diante do crescimento das violências e dos assédios. Ela também alertou para a existência de movimentos de ódio contra mulheres nas redes sociais, como os chamados grupos “redpills”, que utilizam os ambientes digitais para difundir ideologias machistas e fortalecer práticas discriminatórias.

A militante Rosane Silva trouxe para o debate a importância dos espaços de auto-organização das mulheres, destacando que esses ambientes são fundamentais para discutir temas que afetam diretamente a classe trabalhadora. Ela ressaltou que as mulheres representam metade da classe trabalhadora e, ainda assim, muitas vezes têm suas pautas relegadas a segundo plano.

Rosane enfatizou que a pauta das mulheres é estruturante para a transformação social e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Ela também destacou a centralidade do tema do cuidado como elemento essencial para enfrentar as desigualdades e romper ciclos de violência e opressão, especialmente no mundo do trabalho. Segundo ela, as mulheres são constantemente questionadas quanto à sua capacidade e potencialidade para ocupar espaços de decisão, sendo frequentemente associadas exclusivamente ao papel de cuidadoras.

Os debates reforçaram que a construção de políticas públicas voltadas às mulheres exige compromisso político permanente e a incorporação da perspectiva feminista nas estruturas institucionais, reconhecendo reconhecendo as desigualdades históricas e estruturais que impactam a vida das mulheres.

Com informações da Fenajufe