Sobre as Relações de Poder


Foucault nos diz o seguinte: se não formos capazes de mos­trar que é possível mudar a nós mesmos em primeiro lugar, se não conseguirmos mudar o exercício de poder em que esta­mos pessoalmente envolvidos, como podemos pretender que os outros venham a mudar a situação em que vivemos? Como pensar em melhoria ética sem ter em conta a relação que mantenho com meus colegas no lo­cal de trabalho, local em que muitos de nós passamos a maior parte do nosso tempo?

Observe que o que está em jogo não é, portanto, o poder polí­tico, nem o econômico, nem o jurídico, nem o ideológico, nem sequer a dominação étnica, mas o poder em geral, que tem um jeito de ser exercido igual em qualquer experiência de nossa vida cotidiana; o que ocorre entre governantes e governados é baseado na mesma lógica do que ocorre entre ricos e pobres, entre chefe e subalterno, e entre cada pessoa e seu colega de trabalho ou profissão, entre cada marido e cada esposa, entre namorado e namorada, entre colegas de aula, ou entre profes­sor e aluno.

É este poder que precisamos entender e questionar, o jeito de ele funcionar na prática. Sem que entendamos isso, não será possível saber o que acontece conosco, e menos ainda será possível dirigir a conduta de outrem, e em que sempre é possível a resistência, a desobediência, deixaremos de dizer que todos os males se devem aos outros e não também a quem obedece.

E deixaremos de dizer que uns são só bons e outros – em geral os outros – são sempre maus. Perceberemos, então, que o mundo que temos é construído na relação de poder, no conjunto das relações que se tecem na vida cotidiana, em tantas instâncias, desde aquelas em que estamos envolvidos, até aquelas que, em geral, são consideradas as únicas nas quais as coisas seriam decididas.

Percebemos então que não se trata de lutar contra o poder, que em si não é mau nem bom, mas se trata de compreen­der e de, eventualmente, mudar as relações de poder em que estamos envolvidos todos nós. Trata-se de resistir mais e melhor o que é muito diferente de apenas “sobreviver”. Ousar e lutar pelas transformações.

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