Acesso ao trabalho é mais difícil para mulher negra


Por Marcela Cornelli

Leia abaixo matéria da Agência Carta Maior:

A mulher negra é a mais desfavorecida quanto se trata de acesso ao trabalho e de ascensão profissional. É isso o que aponta a pesquisa sobre o “Perfil social, racial e de gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas”, realizada pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e divulgada nesta quarta-feira (3).
Diferentemente da primeira pesquisa desse tipo, executada em 2001 e que se restringia às diretorias e presidências das maiores empresas do Brasil, o estudo deste ano englobou todo o quadro de funcionários. E mostrou, em números absolutos, que das 6.016 mulheres presentes na gerência dessas empresas, somente 372 são negras ou pardas.

“Entre os 3.688 diretores das empresas que participaram da pesquisa, apenas 3 são mulheres negras”, diz Paulo Itacarambi, diretor-executivo do Instituto Ethos. Para o Ethos, essa desigualdade já é bastante conhecida. A pesquisa permitiu apenas ter sua real dimensão e a do esforço necessário para mudá-la.

A mulher negra é a mais prejudicada porque pertence, ao mesmo tempo, a dois grupos discriminados no mercado de trabalho: os negros e as mulheres. A presença destes grupos nas empresas ainda é reduzida se comparada à sua participação na sociedade brasileira ou na própria população economicamente ativa (PEA). Enquanto as mulheres representam 40% da PEA, nas empresas elas são 35% do quadro geral. E por mais que elas estejam cada vez mais qualificadas para o mercado de trabalho, alcançar postos de direção é algo para poucas. Apesar do índice de participação feminina na direção das empresas ter crescido de 6% para 9% em relação ao último levantamento, as mulheres formam apenas 18% dos quadros de gerência.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o salário médio mensal da população feminina ocupada com 11 anos ou mais de estudo equivale a 57,1% do salário médio da população masculina nas mesmas condições. Na Região Sudeste, há 42,8% mais homens do que mulheres com rendimento acima de cinco salários mínimos. Aliás, as mulheres só são maioria nas classes de rendimento até dois salários mínimos.

Quanto aos negros, eles são apenas 1,8% da direção das 500 maiores empresas brasileiras e 8,8% dos gerentes. Ainda segundo o IBGE, o rendimento médio mensal da população negra ocupada é 50% menor que o salário médio da população branca. Cruzando os dados, a mulher negra se mostra a mais vulnerável ao preconceito que ainda existe por parte do mercado.

“Ao mesmo tempo, existem pouquíssimo programas voltados especificamente para a mulher no sentido de mudar sua condição profissional”, afirma Itacarambi. “O que as pessoas não entendem é que, atrás de uma mulher, existe uma família. Portanto, se houver uma ação positiva e planejada para facilitar o acesso feminino à remuneração, estaremos beneficiando um conjunto maior de pessoas”, acredita.

A vez dos deficientes
Cerca de 610 milhões de pessoas em todo o mundo, ou seja, 10% da população do planeta, apresentam algum tipo de deficiência física ou mental, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS). Desse grupo, 62% fazem parte da população economicamente ativa. No Brasil, eles são apenas 14,5% e ainda menos no quadro geral das grandes empresas. Apesar da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ser apoiada por lei desde 1991, somente 3,5% do quadro funcional das companhias entrevistadas é formado por deficientes.

Por outro lado, e este foi um dado positivo revelado pelo estudo, 32% das grandes empresas têm programas para promover a contratação de deficientes. “Isso acontece porque é lei e também porque a sociedade está fazendo uma mobilização neste sentido. Este resultado é produto deste movimento social”, afirma Itacarambi.

Ao todo, 40% das companhias relataram desenvolver algum tido de iniciativas em favor da diversidade Há bem pouco tempo, segundo o Instituto Ethos, a relevância do tema era quase ignorada no meio empresarial brasileiro. “O objetivo da pesquisa foi exatamente este: fazer com que a empresa olhasse de alguma forma para esta questão da diversidade com equidade. Por isso pedimos para os diretores responderem aos questionários”, explica Paulo Itacarambi.

O próprio fato de 50% do universo visado pela pesquisa ter preenchido os questionários já revela uma disposição para a mudança. Segundo o Ibope, a média de respostas voluntárias em levantamentos que envolvem executivos é de 5 a 10%.

O próximo passo
O Instituto Ethos já enviou o resultado do estudo para as mil maiores empresas do país, sugerindo que tenham iniciativas para enfrentar esta situação. “Há ainda muito que avançar na promoção da diversidade de gênero, raça e faixa etária e da eqüidade no tratamento de todos os grupos presentes nas empresas. Os resultados desta pesquisa mostram a necessidade de fortalecer os trabalhos e a promoção da diversidade, levando em conta a igualdade de oportunidades para todos”, disse Oded Grajew, diretor-executivo do Instituto Ethos.

Os coordenadores da pesquisa acreditam que, se conseguirem que as empresas, mesmo sem contratar, alterem esta distribuição interna de quadros, o impacto na distribuição de renda do país já será grande. “A mesma desigualdade que está dentro das empresas está na sociedade. As empresas só vão valorizar a equidade quando a sociedade também a valorizar como um todo. Uma coisa alimenta a outra”, aponta Itacarambi.

Para saber mais sobre a pesquisa, visite o site www.ethos.org.br.

Fonte: Agência Carta Maior