Um em cada quatro jovens vive em situação de miséria no mundo


Por Marcela Cornelli

Quase metade da população mundial tem menos de 25 anos. De acordo com o relatório Situação da População Mundial 2003, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o mundo tem hoje mais de 1,2 bilhão de adolescentes, com idade entre 10 e 19 anos. Destes, 87% vivem em países em desenvolvimento. O relatório, divulgado hoje, aponta os principais problemas enfrentados por essa parcela da população, como pobreza, dificuldade de acesso à educação e doenças.

O estudo revela que um em cada quatro jovens enfrenta a exclusão social no mundo. Isso significa um total aproximado de 238 milhões de pessoas entre 13 e 24 anos submetidos às adversidades da miséria. Grande parte deles sobrevive sem os pais ou é marginalizada por outros motivos, incluindo migração, deficiência, saúde precária ou desintegração familiar.

Mais de 13 milhões de crianças com menos de 15 anos de idade perderam o pai, a mãe ou ambos por causa da Aids. Muitos assumem a responsalbilidade de cuidar dos irmãos mais novos ou passam a viver nas ruras. Estimativas globais indicam que mais de 100 milhões de crianças (metade delas na América Latina) perambulam pelas ruas e esse número vem aumentando.

Os conflitos políticos e étnicos recentes, segundo o relatório, também têm cobrado um tributo da juventude, aumentando sua vulnerabilidade à exploração sexual e aos riscos a ela associados. Uma em cada 230 pessoas no mundo é criança ou adolescente forçada a sair de casa por causa de guerras.

Segundo o estudo, 700 milhões de jovens vivem com menos de dois dólares por dia e metade dos novos casos de infecção pelo vírus da Aids atinge jovens entre 15 e 24 anos. “Se você começa a sua carreira de vida já na sombra da exclusão social, qual a sua chance de atingir um nível de desenvolvimento?”, indaga a representante no Brasil do UNFPA, Rosemary Barber-Madden. “O nosso objetivo não é trazer tragédia e miséria para a mídia, nós estamos querendo chamar a atenção mundialmente para a questão de desenvolvimento”, explica a representante.

Para Rosemary, as políticas e os investimentos atuais não são suficientes para atingir as Metas de Desenvolvimento do Milênio, assumidas por líderes de diversos países em 2000. O objetivo destas metas é reduzir a pobreza e a fome e melhorar os níveis de saúde e educação até 2015. Mas, na questão do jovem, os investimentos hoje correspondem a menos da metade do que foi acertado para 2003.

SAÚDE
Todos os dias, seis mil jovens são contaminados pelo vírus da Aids, o HIV. A Aids atinge mais às garotas que os rapazes – são 7,3 milhões de jovens mulheres vivendo com o HIV e 4,5 milhões de rapazes. Por características biológicas, o risco de infecção numa relação sexual sem proteção é de duas a quatro vezes mais alta entre as mulheres.

Dos jovens com 15 anos que vivem em Botsuana, África do Sul e Zimbábue 60% correm risco de se infectar. A representante do UNFPA explica que para mudar esta situação, não só no continente africano, não basta apenas distribuir preservativos. “Para resolver as desigualdades é preciso ter vontade política nacional, e não me refiro só a políticos e a governos. Estou falando de vontade política dos pais, da comunidade, das lideranças e o envolvimento dos jovens porque quem está vivendo isso são os jovens”, disse Rosemary.

A representante do UNFPA defende que são necessárias ações de educação, maior acesso à informação e medidas que visem a diminuir as desigualdades de oportunidade entre os sexos. ”É preciso promover um comportamento saudável mais seguro. Quanto mais anos de estudo, menor a taxa de fecundidade”, afirmou. Acesso aos programas de saúde reprodutiva e o envolvimento dos jovens na formulação das políticas públicas também são outros fatores importantes.

A prevenção, além de salvar vidas, representa também benefício econômico para os governos. Pelos cálculos do Fundo de População, os países com renda per capita anual de mil dólares economizam 34,6 mil dólares a cada contaminação pelo HIV evitada.

Além da vulnerabilidade à Aids, as mulheres enfrentam também os riscos da gravidez precoce. A cada ano, cerca de 14 milhões de jovens entre 15 e 19 anos têm filhos. A mortalidade materna é a principal causa de morte entre mulheres nessa faixa etária de 15 a 19 anos.

EDUCAÇÃO
O relatório aponta que, apesar de a maioria ter acesso à escola, 57 milhões de rapazes e 96 milhões de jovens mulheres, entre 15 e 24 anos, não sabem ler e escrever. Numa tendência de corrigir esta desigualdade de gênero, o estudo identifica que o acesso das mulheres à educação tem crescido em ritmo mais acelerado. Cerca de 90 países estão próximos da meta de acabar com esta desigualdade até 2015.

Para as mulheres, o casamento e a gravidez precoces provocam problemas na educação das adolescentes e, em muitos casos, o abandono da escola. A estimativa do UNFPA é que 82 milhões de garotas em países em desenvolvimento, que agora estão com idades entre 10 e 17 anos, estarão casadas antes dos 18 anos.

Fonte: Agência Brasil