Sem FSM em 2008, movimentos propõem mobilização mundial


O Fórum Social Mundial no Quênia terminou de fato nesta quarta (24), com um grande esforço de sistematização e articulação de ações a partir dos debates ocorridos nos últimos três dias, nos cerca de 1200 seminários, oficinas e conferências do evento. Dividida em 21 temas, como água, paz e guerra, habitação, mulheres, trabalho, migrações e dívida, entre outros, a sistematização foi uma inovação do FSM 2007 e possibilitou concretizar campanhas mundiais nos diversos setores de militância social.
Algumas das agendas acordadas neste processo foram levadas à tradicional Assembléia dos Movimentos Sociais do FSM, que ocorreu no final da tarde de quarta e que, mais do que um grande resumo dos debates políticos, este ano também foi o espaço de expressão das duras críticas ao aspecto mercantilista deste Fórum.
As críticas dos movimentos aos organizadores locais do FSM se centraram principalmente no caráter excludente do evento a “portas fechadas”, na forte presença de policiais armados, no financiamento privado da empresa de telefonia Celtel e no funcionamento de um restaurante do clube de golfe Windsor no espaço do Fórum, pertencente ao ministro de assuntos internos que teria sido colaborador (“foi torturador”, acusou um queniano) do regime colonial inglês.
Um detalhe: a revolta com o restaurante, que já tinha sido expressa anteriormente através de manifestações e protestos, esquentou no último dia, quando um grupo de jovens quenianos invadiu e destruiu o local e distribuiu comida para todo mundo. “Ao menos um dia no FSM nós pudemos comer”, festejou um manifestante.
O grande problema deste Fórum, porém, foi mesmo a exclusão dos que não podiam pagar a taxa de inscrição, acusaram os ativistas. “O FSM deveria ser um espaço aberto”, afirma a declaração da Assembléia dos Movimentos Sociais, mas o que se viu, continua o texto, foi militarização, capitalização e privatização. Também a presença no FSM de organizações religiosas que criticaram abertamente bandeiras do movimento feminista e da diversidade sexual, foi considerada uma violação da Carta de Princípio do FSM.
Um dos depoimentos mais contundentes na Assembléia, que reuniu cerca de 5 mil pessoas, foi o de uma das coordenadoras de um evento paralelo, o Fórum Social dos Pobres, realizado pela organização Peoples Parliament no centro de Nairobi. “O FSM trouxe o mundo a mim. O melhor do mundo. Conheci aqui muitas pessoas que acreditam no que nós acreditamos. Mas não é justo ter um FSM no Quênia, e a grande maioria das pessoas que estão nesta assembléia não ser queniana. Somos pobres materialmente, mas acreditamos ter muito o que dar ao processo FSM”, afirmou.
A própria dificuldade de realizar a Assembléia dos Movimentos, que todos os anos fecha o FSM mas que, nesta edição, não foi sequer incluída na programação, foi outro fator de irritação dos movimentos com os organizadores locais. Apenas na noite de terça, e por força da intervenção da secretaria brasileira do Fórum, os organizadores quenianos cederam o espaço para a reunião, afirmou um ativista brasileiro.

Agendas

Independente das críticas feitas a ele, este FSM foi bastante produtivo em termos de articulações concretas. Atendida pelo Conselho Internacional do Fórum, a velha reivindicação dos movimentos sociais, de que o FSM seja bi-anual para diminuir o peso dos altos custos de viagem, criou um novo desafio para o movimento altermundista: como não deixar janeiro de 2008 passar em branco. A sugestão foi que, durante dois dias neste mês – a serem definidos a posteriori -, no mundo todo ocorram atividades simultâneas sobre as principais temáticas do FSM. Isto independente dos Fóruns Sociais Regionais que ocorrerão em 2008, como o Fórum Social das Américas, programado para a Guatemala.
Outras datas de mobilização internacional sugeridas foram o dia 19 de março, quando devem ocorrer grandes manifestações contra a guerra em “comemoração” ao aniversário de quatro anos da invasão do Iraque pelos EUA, e o 8 de junho, quando acontece a reunião do G 8 (grupo dos oito países mais ricos) em Rostock, na Alemanha.
Na manifestação de março, a assembléia final dos movimentos anti-guerra propôs que se demandasse a retirada imediata das tropas de ocupação do Iraque e do Afeganistão, compensações pelos danos causados e justiça ao povo iraquiano, controle iraquiano sobre o seu petróleo, e fechamento das bases militares americanas no Oriente Médio.

Hollywood no FSM

Diferente das assembléias anteriores, este ano os movimentos sociais não conseguiram acordar previamente uma proposta de declaração abrangente, que reunisse as reivindicações e posições de todos os setores, muito por falta de espaço institucional para articulação e planejamento. Assim, este acabou sendo um dos mais caóticos encontros do FSM – no bom sentido -, com a intervenção dos mais variados militantes das mais variadas causas, mas com pouca inter-articulação.
Uma presença inusitada neste espaço foi o ator americano Danny Glover, que veio ao FSM pela segunda vez (a primeira foi em 2005, em Porto Alegre). Militante de longa data da organização Transafrican Fórum, criada há 30 anos para lutar contra o Apartheid na África do Sul, Glover se disse muito impressionado com as colocações dos ativistas. “Fico muito feliz ao ouvir todos estes depoimentos. Temos que ter espaço para contar nossas histórias, e para avaliar fracassos e vitória”, afirmou o ator.
Glover terminou sua intervenção dizendo que a mudança das políticas de opressão no mundo depende dos movimentos sociais. “Vocês é que podem parar estas políticas de opressão. Isto depende de vocês”.

Fonte: Agência Carta Maior (Verena Glass)