Brasil luta há 20 anos contra Aids e intensifica campanha


Por Marcela Cornelli

A política pioneira do Brasil no combate à Aids permitiu reduzir em 50% as mortes causadas pela doença desde 1997, mas as autoridades querem reduzir a taxa de incidência em mais 30% nos próximos três anos. Com mais de 170 milhões de habitantes, o Brasil conseguiu estabilizar em 22 mil o número de novos casos frente aos 25 mil registrados na década de 90. “O Brasil luta há 20 anos contra a epidemia. Conseguimos inverter os prognósticos sobre uma doença explosiva. Vaticinavam uma situação semelhante à da África, em razão das taxas demográficas. Vinte anos depois chegamos a uma situação diferente”, afirmou o responsável pelo programa antiAids brasileiro, Alexandre Grangeiro.
Em julho passado, este sociólogo sucedeu o primeiro “tzar da Aids” no Brasil, o dermatologista Paulo Teixeira, no cargo desde 1983, e que foi chamado para trabalhar na Organização Mundial da Saúde (OMS), que quer aproveitar a experiência brasileira para a elaboração de uma nova política de combate à doença no mundo. O Brasil defende e pratica a distribuição gratuita e universal dos medicamentos contra a Aids e reclama medidas de flexibilização das regras sobre as patentes ou a aplicação de preços mais acessíveis. O programa brasileiro de combate à Aids ganhou o Prêmio Gates de Saúde Mundial de 2003.

Embora as autoridades brasileiras considerem positivo ter estabilizado a epidemia, a taxa de incidência ainda é muito elevada. “É preciso baixar a taxa de incidência em 30% até 2006. Hoje há 15 casos de Aids por cada grupo de cem mil habitantes. É preciso chegar a 11 ou 10 casos”, destacou Grangeiro. Para isso é necessário intensificar as campanhas de prevenção e melhorar a qualidade dos serviços. Atualmente 135 mil brasileiros, ou seja, a totalidade dos que sabem que são portadores do vírus da Aids, se beneficiam do programa oficial antiAids e da distribuição gratuita de 15 remédios anti-retrovirais, dos quais sete são genéricos fabricados no Brasil.

Casamento não é proteção

O Ministério da Saúde estima em 400 mil o número de brasileiros soropositivos que ignoram que estão infectados. “Este ano incorporamos o tenofovir e o atazanavir, os mais recentes medicamentos. Negociamos uma redução de cerca de 75% em relação aos preços (dos medicamentos) nos Estados Unidos”, explicou Grangeiro, que informou que “65% dos gastos do Ministério da Saúde correspondem à compra dos remédios”. Em 1997, o Brasil lançou sua própria produção de remédios genéricos e conseguiu reduzir em até 80% o preço de alguns medicamentos contra a aids, depois de uma queda de braço com os grandes laboratórios farmacêuticos estrangeiros.

Graças à economia obtida, o Brasil vai poder aumentar os gastos em prevenção: de R$ 140 milhões este ano para R$ 245 milhões em 2004. O Brasil também tem como objetivo lutar contra a propagação da epidemia entre os jovens e, em agosto passado, começou a distribuir gratuitamente preservativos em escolas públicas. No final de outubro, o governo lançou a campanha publicitária “Fique Sabendo”, para incentivar a população a fazer o teste de Aids. A campanha também se voltou para as pessoas casadas, depois da constatação de um aumento anual do número de mulheres contaminadas por seus maridos. Um dos “slogans” ilustra esta preocupação: “Se você faz sexo sem camisinha, faça o teste da aids. O casamento não é uma garantia de proteção”.

Fonte: Matéria do Portal Vermelho
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