Leia o artigo intitulado “Viver para trabalhar ou trabalhar para viver? Apontamentos sobre a redução da jornada 6×1”, escrito pelo servidor do TRT-SC Adailton Pires Costa. Adailton é coordenador de Formação Sindical do Sintrajusc, historiador e jurista. Doutor em História do Direito pela UFSC.
Viver para trabalhar ou trabalhar para viver? Apontamentos sobre a redução da jornada 6×1

O Brasil vai quebrar?
Em 1884, quando os líderes abolicionistas tentavam acabar com a escravidão, os “senhores de escravos” gritavam que isso iria destruir com a economia do país, que ocorreria fuga de capitais, que os escravizados não teriam mais trabalho.
Em 1917, quando os trabalhadores anarquistas e socialistas fizeram uma grande greve na capital do país (então RJ) pelo direito ao descanso semanal, seguindo o exemplo da greve geral em São Paulo, os grandes jornais da capital reclamaram que isso iria quebrar o comércio, que as pessoas ficariam sem restaurante para comer.
Em 1943, quando a pressão dos sindicatos fez com que Vargas publicasse a CLT, os grandes empresários denunciaram que o Brasil iria quebrar, que iria faltar emprego etc e tal.
Em 1988, quando foi promulgada a atual Constituição Federal de 1988, com novos direitos sociais, o então presidente José Sarney comentou que o excesso de direitos nela iria fazer com que o país ficasse ingovernável.
Em nenhum desses momentos o Brasil quebrou, mas o discurso do medo produzido pelas elites continua até os dias de hoje…
A PEC da 6×1
Nos últimos meses, assistimos a uma nova gritaria, agora diante de duas Propostas de Emenda Constitucional sobre a matéria de jornada de trabalho. A PEC 8/2025 da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que canalizou a pressão do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), propôs o fim da jornada 6×1, com redução dos dias de trabalho semanal para quatro (jornada 4×3) e redução da jornada de trabalho semanal para 36 horas. Já a PEC 221/2019 do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) também propôs a redução da jornada de trabalho semanal para 36 horas.
Diante dessas PECs, que foram reunidas para votação neste mês (05-2026) na Câmara dos Deputados, novamente aparecem os mesmos velhos e tradicionais argumentos da classe dominante: economia vai quebrar, não vai ter emprego, os preços vão subir, o mundo vai acabar.
Esses críticos do fim da jornada 6×1, se pudessem, retornariam à escravidão, restaurando a famigerada jornada 7×0, que os escravizados bem conheciam, onde não havia descanso.
Como não conseguem defender abertamente a escravidão hoje, a classe dominante brasileira está tentando aplicar a mesma estratagema utilizada pelos escravagistas no século XIX para barrar a abolição: o tempo. Durante o império brasileiro, os parlamentares inventaram leis emancipacionistas com propostas de fim gradual, lento e seguro da escravidão, buscando barrar a força do movimento abolicionista.
No Brasil de 2026, os representantes da burguesia propuseram um tempo de transição gradual numa versão paliativa da PEC da 6×1. A proposta apresentada pelo relator da PEC é de redução da jornada semanal para 40 horas daqui a 14 meses, deixando para as calendas gregas a proposta original de 36 horas. Embora o acordo provisório prometa redução gradual da jornada semanal para 42 horas, com 2 dias de descanso, dentro de 60 dias, todos sabemos que até o final da tramitação da PEC esses 60 dias podem se tornar 60 semanas e sobrar, ao final, só a promessa de que a redução vai ocorrer daqui a 14 meses.
A grande armadilha
Mas a pior armadilha que as elites trazem no acordão da PEC da 6×1 está nas entrelinhas dos parágrafos e exceções que ela vai conter. A proposta mantém previsão de compensação de horários e redução da jornada por meio de acordo ou convenção coletiva de trabalho. Essa é a armadilha que ninguém fala. Isso significa que a conquista da redução de jornada pode ser jogada na lata do lixo no outro dia por meio de um acordo coletivo entre empresa e sindicato.
Isso passou a ser possível com a Reforma Trabalhista de 2017, que autorizou a pactuação em negociação coletiva de condições de trabalho piores do que a lei (o que viola princípios basilares do Direito do Trabalho, mas o Judiciário trabalhista tem legitimado esse retrocesso). E com o fim do imposto sindical, vemos sindicatos cada vez mais fragilizados e reféns do poder do dinheiro dos patrões, que conseguem impor suas regras nas negociações e até comprá-las muitas vezes. No pós-reforma trabalhista, o sindicato não pode cobrar contribuição sindical de todos os empregados, mas pode negociar piores condições para todos! Essa é a lógica do capital. Os trabalhadores só podem ter poder para piorar sua vida. Portanto, os patrões já sabem que podem burlar o fim da jornada 6×1 por meio de acordo coletivo de trabalho, pois já fazem isso estabelecendo hoje banco de horas abusivos, jornadas esdrúxulas ao arrepio da lei, redução de adicionais etc.
Portanto, não basta reduzir a jornada de trabalho, não basta acabar com a jornada 6×1. É preciso banir os mecanismos que impedem a efetivação dessa redução. É preciso revogar a Reforma Trabalhista, que foi promessa de campanha do atual governo federal e até hoje não foi pautada no Congresso.
A passos de tartaruga
Ao lembrarmos que há menos de 140 anos quem trabalhava nesse país não tinha um dia de descanso sequer, percebemos o quão poucos avançamos, pois saímos da 7×0 e avançamos apenas um degrau. Passamos da 7×0 para a 6×1 e desde então já se passou mais de um século.
Portanto, nosso ideal não pode ser apenas a jornada 5×2, mas a inversão dessa ordem dos números. Não podemos parar na luta pelo fim da jornada 6×1. Devemos almejar um futuro em que o trabalho não ocupará a maior parte de nossas vidas. Devemos sonhar e lutar pela jornada 4×3, 3×4, 2×5, colhendo os frutos das revoluções tecnológicas que ocorreram às custas dos trabalhadores.
Nossa luta não pode parar até alcançarmos uma vida digna com mais tempo para viver e descansar do que para morrer de trabalhar.
Não podemos parar de lutar até conquistarmos um tempo para viajar e fazer poesia, que hoje nos é roubado nas horas extras, banco de horas, uberizações, pejotizações e precariedades afins.
Para chegarmos nesse objetivo de uma vida digna, as organizações sociais e sindicais precisam colocar como prioridade a luta permanente pela redução de jornada e pela revogação das contrarreformas precarizantes, como a Reforma Trabalhista de 2017. Essa luta começa pela redução da jornada 6×1, mas não pode terminar aí, pois, sem tempo de vida fora do trabalho, não é possível falar em vida digna no trabalho.
