Lições que o Fórum Social Mundial em Mumbai já deixa antes mesmo da abertura oficial hoje


Por Janice Miranda

Idéias criativas, críticas bem recebidas e maior participação popular na grade de programação e no comitê organizador são algumas das lições que o Fórum Social de Mumbai dará aos brasileiros, que recebem o evento de volta a Porto Alegre em 2005.

“A Ásia está definitivamente no Fórum Social Mundial”. A frase é do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, intelectual que nutre forte ligação com o FSM desde a sua criação e que na véspera da abertura do evento se diz impressionado com o que vê na Índia. São lições que o processo de mundialização do Fórum, que pretende levar o slogan de “um outro mundo possível” para outros países, certamente aprenderá com os indianos. Após uma reunião do Comitê Internacional, onde o comitê local fez uma apresentação final da estrutura de funcionamento do encontro, a unanimidade era a de que a forma como a Índia organizou o Fórum deve inspirar Porto Alegre, que receberá o evento no ano que vem.

O destaque na programação do Fórum é o grande número de atividades chamadas de autogestionadas, ou seja, que não foram propostas pela comissão organizadora e são desenvolvidas com autonomia pelas entidades participantes. Ao todo, são mais de 1.200, propostas por 93 países. A Índia obviamente encabeça a lista, com o Brasil em segundo. O país inscreveu 109 oficinas no FSM.

Fortalecer a participação popular é outra lição da Índia para o Fórum. Aqui, a cultura de mobilização política é muito forte e há duas raízes de movimentos. Uma é a dos movimentos de massa, que vêm dos partidos tradicionais, sindicatos e movimentos de mulheres; outra é a dos movimentos populares, com características próximas ao dos sem-terra no Brasil.

Na Índia, o comitê organizador é formado por 190 organizações, reunindo as mais diferentes tendências, abrigando inclusive os dalits, povo pertencente à casta indiana mais inferior e vítimas da maior exclusão social do país. Trazer a problemática questão das castas que dividem a sociedade indiana não apenas para o Fórum, mas para o seio de seu comitê organizador, é um exemplo que tem sido aplaudido neste encontro.

O Fórum da Índia também avança quando propõe o debate da aproximação dos movimentos sociais com os partidos políticos, característica muito presente nas organizações de esquerda indianas. A população do país sede deste FSM acredita que políticos e militantes sociais podem ser parceiros e que esta união fará com que a agenda dos partidos seja pautada pelos movimentos sociais.

Receber críticas e respondê-las com naturalidade tem sido outro ponto positivo deste Fórum. Nesta quinta-feira (15), Kamal Mitra Chenoy, um dos organizadores, declarou que o FSM acolheria com prazer os participantes do Mumbai Resistance, um fórum alternativo organizado em paralelo ao Social por um grupo descontente com a macro-estrutura do FSM. Entre outros pontos, eles condenam a ausência de uma política de maiores resultados no Fórum.

O FSM deve voltar a Porto Alegre em 2005 mais mundializado, mais forte e com vínculos mais bem estabelecidos com a Ásia. Mas as lições que os brasileiros levarão de sua passagem pela Índia podem ser ainda mais positivas. Uma expectativa que começa a ter suas respostas a partir desta sexta, quando o IV Fórum Social Mundial será aberto oficialmente em Mumbai.

Fonte: Agência Carta Maior