Hoje faz 30 anos da morte de Pablo Neruda, poeta dos povos latino-americanos


Por Marcela Cornelli

O Chile e o mundo celebram hoje o 30º aniversário da morte de Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura e considerado um dos grandes poetas das Américas no século passado. Neruda morreu de câncer apenas 12 dias depois do golpe militar de 11 de setembro de 1973. Seu funeral, sob a estrita vigilância do Exército no poder, foi também a primeira demonstração da resistência à ditadura. Os cantos partindo da multidão testemunhavam, para além da morte, o poder subversivo da poesia.

Ricardo Neftali Reyes Basoalto tomou o pseudônimo Pablo Neruda do poeta checo Jan Neruda (1834/1891), cantor da gente pobre. Nasceu em Parral, a 12 de julho de 1904, de uma família modesta, e passou a infância em Temuco, bem perto da natureza do chuvoso, melancólico e selvagem sul do Chile, antes de cursar a universidade em Santiago.

Desde a adolescência escreveu com avidez. Em 1923 publicou Crepusculário, o primeiro volume de uma longa série intercalada por viagens e pelo exílio. “Assim, por toda a vida fui, vim, mudando de roupa e de planeta”, diria.

Na Espanha, o engajamento
De 1926 a 1943, Pablo Neruda ocupou diferentes postos diplomáticos: em Rangun, Colombo, Batávia, Buenos Aires. Em 1935 estava em Madri, onde travou contato com a poesia espanhola, fez-se amigo de Garcia Lorca e viveu a tormentosa experiência da Guerra Civil. Escreveu Espanha no coração. Com o poeta peruano César Vallejo, fundou o Grupo Hispano-Americano de Ajuda à Espanha. O desfecho do conflito, com a vitória do fascismo, marcou uma mutação profunda em suas convicções e seus poemas.

Em 1940 foi nomeado cônsul-geral no México. A pintura dos grandes moralistas mexicanos – Miguel Orozco, Diego Rivera e David Siqueros — deixaria sua influência nos versos de Canto Geral, sua obra maior, que publicaria em 1950, ilustrado por Siqueros e Rivera. Duas mil pessoas comparecem à festa em que se despede do país.

Em 1945, já consagrado como poeta, ingressou no Partido Comunista do Chile e elege-se senador, por Tarapacá e Antofagasta, províncias mineiras do norte do país. Seu discurso no Senado, “Eu acuso”, provocou forte reação da direita. Neruda perdeu a imunidade parlamentar, foi condenado à prisão, teve que cair na clandestinidade e fugir do país, cruzando em segredo a cordilheira dos Andes. No exílio até 1952, voltou a multiplicar suas viagens. Recebeu o Prêmio Stálin da Paz. Passou uma temporada na Itália, que seria retratada com originalidade, 50 anos depois, no filme “O carteiro e o poeta”.

Nos anos 50, voltou ao seu Chile natal, estabelecendo-se na casa que construiu na costa da Ilha Negra, perto de Vina del Mar, a 135 quilômetros de Santiago. Continuou a viajar e escrever copiosamente, traduzido para dezenas de línguas, enquanto se casava pela terceira vez. Prosseguiu também a militância política, indissociável de sua obra. Seu último livro, publicado em fevereiro do ano de sua morte, intitula-se Incitação ao nixonicídio e elogio da revolução chilena. Em 1971 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Incontáveis homenagens
Um sem-número de homenagens assinala hoje a morte de Neruda. Na casa do poeta na Ilha Negra, convertida em museu, o presidente do Chile, Ricardo Lagos, comparece ao lado de figuras da arte e cultura. O ato é uma iniciativa da Fundação Pablo Neruda e da Comissão de Assessoria Presidencial para a Celebração do Centenário de Pablo Neruda. Este se completa destro de dez meses e será marcado por uma agenda bem mais extensa de comemorações.

Na Ilha Negra será inaugurada uma exposição de fotos de Jesús Inostroza, intitulada “Funeral vigiado” e baseada no livro do mesmo nome do jornalista Sergio Villegas. Ali se retrata como os chilenos, ao se despedirem de seu poeta, fizeram seu primeiro protesto contra a recém-instalada ditadura de Pinochet.

Outras homenagens foram programadas em Santiago e Valparaíso. Na capital, poetas chilenos promovem um recital de versos do Nobel. Na chamada Praça do Poeta, diante da casa “La Chascona”, onde Neruda morou também, o Grupo Cultural Gerações interpretará uma versão de Alturas de Macchu Picchu, musicada por Los Jaivas.

Fonte: Portal Vermelho