Fórum de São Paulo reafirma unidade da esquerda latino-americana


A esquerda latino-americana reafirmou ontem (4) a solidariedade com Cuba e Venezuela, o apoio à soberania de Porto Rico e a unidade contra o modelo neoliberal, no encerramento do 12.º Encontro do Fórum de São Paulo.
A reunião, que durante três dias abordou a integração latino-americana do ponto de vista progressista, discutiu as tradicionais reivindicações de partidos e movimentos de esquerda, além das perspectivas dos que nos últimos anos passaram de oposição a governo.
“Quando criamos o Fórum de São Paulo, todos os partidos eram de oposição e fazíamos uma política de confronto ao modelo neoliberal. Agora muitos estão no governo, mas a solidariedade entre nós é a mesma”, disse o secretário de Relações Internacionais do PT, Paulo Ferreira.
O Fórum de São Paulo foi criado em 4 de julho de 1990 por 48 partidos e movimentos sociais, como um espaço político para discutir os rumos da esquerda depois da queda do sistema socialista no Leste Europeu e formular alternativas ao modelo neoliberal.

Direitos Humanos

Socorro Gomes, presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz) e membro do PCdoB, ressaltou em sua exposição que o direito elementar dos povos é viver em paz para escolher seu caminho e destino. A paz, segundo ela, nunca esteve tão ameaçada como na atualidade e a vulnerabilidade dos povos e nações passou a ser permanente após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos EUA.
Ela criticou duramente as invasões injustificadas do Afeganistão e Iraque pelos EUA e afirmou que em todos os lugares que o imperialismo atuou, o terror foi instaurado.
“Com uma potência hegemônica que substituiu a Assembléia da ONU como forma de negociação e transforma a guerra no mecanismo comum de fazer valer seus interesses, a humanidade hoje está mais vulnerável e o direito à vida está ameaçado. A luta pela paz hoje é a própria luta pela sobrevivência da humanidade”, disse.
Socorro finalizou afirmando que a própria integração da América Latina é tamém essencial na luta pela paz.
A representante das mães da PLaza de Mayo, Nora Cortiñas, cujo filho desapareceu na ditadura militar argentina, falou sobre as ações do Plano Condor – uma aliança das ditaduras militares de Paraguai, Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Bolívia – que exterminaram milhares de opositores dos regimes nas décadas de 70 e 80.
“Não pedimos muito, pedimos que haja justiça social”, disse Nora, sobre a situação de miséria e pobreza vivida na América Latina. De acordo com ela, os direitos humanos começam primeiro pela justiça, transparência e com democracias participativas, onde haja consulta popular. Ela ainda criticou as foças de paz da ONU, lideradas pelo Brasil, no Haiti, argumentando que o país não precisa de apoio militar, mas sim político.

Resoluções aprovadas

Na sessão de encerramento do 12.º Encontro, o Fórum de São Paulo aprovou várias resoluções que reafirmam a solidariedade entre a esquerda da região, começando pela revolução cubana. “O Fórum de São Paulo pede o fim do bloqueio e da hostilidade do imperialismo americano contra Cuba, e a libertação dos cinco companheiros cubanos detidos em prisões dos Estados Unidos pelo suposto crime de terrorismo”, diz o texto.
Segundo os participantes da reunião, a prisão dos cinco patriotas cubanos em Miami tem relação também com a proteção do regime Bush ao terrorista de origem cubana Luis Posada Carriles, pedido em extradição pela Venezuela por terrorismo.
“Solicitamos que o governo dos Estados Unidos informe a situação do terrorista Luis Posada Carriles neste país, e proceda sua imediata extradição, conforme o acordo assinado com a República Bolivariana da Venezuela”, afirma um dos parágrafos.
Posada, um cubano naturalizado venezuelano de 77 anos, é um dos autores do atentado que explodiu um avião da Cubana de Aviación, em 1976, que fazia a rota entre Caracas e Havana, matando 73 pessoas. A Venezuela e seu presidente Hugo Chávez também foram alvos de muitas discussões no Fórum, que decidiu se unir em defesa do processo bolivariano, que levou o país a grandes resultados, tanto em nível político e social como no econômico.
“Atentos ao fato de que o imperialismo ianque implementou sua estratégia desestabilizadora na região (…), rejeitamos plenamente qualquer tentativa de ingerência e intervenção nos assuntos internos dos países latino-americanos e caribenhos”, afirma a resolução.
Os partidos e movimentos que participaram do Fórum também querem que o governo dos Estados Unidos assuma sua responsabilidade para que o povo porto-riquenho possa exercer plenamente seu direito inalienável à livre determinação e à independência.
Sobre o conflito armado na Colômbia, o Fórum rejeitou a recente aprovação pelo Congresso da lei de justiça e paz, porque considera que a medida abre caminho para a impunidade dos grupos paramilitares.
Em outra resolução, o Fórum pediu que o presidente da Nicarágua, Enrique Bolaños, retome o diálogo nacional com as outras forças políticas do país, como a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). No caso do Haiti, a esquerda aprovou um documento pedindo que a comunidade internacional perdoe totalmente a dívida desse país, para que o povo possa sair da pobreza extrema.

Presença comunista

Além de José Reinaldo Carvalho, vice-presidente e secretário de Relações Internacionais do PCdoB e de Ronaldo Carmona, membro da Comissão de Relações Internacionais do PCdoB, que estiveram presentes nos três dias de duração do Fórum, o Partido esteve representado também por Jamil Murad, Socorro Gomes, Nivaldo Santana, Nádia Campeão e Ronald Freitas.
O PT, anfitrião do encontro, e alvo de acusações da oposição de direita, recebeu a solidariedade dos participantes internacionais do Fórum “diante dos ataques da direita que tentam reverter o processo de mudanças sociais e políticas progressistas iniciado no Brasil”.

Fonte: Diário Vermelho