Especial 8 de março: Mulheres que derrubaram um ditador


 
 
     

Durante os 18 dias de protestos que levaram à queda de Mubarak, as egípcias estiveram presentes. Agora, elas continuam na luta por melhores condições de vida, democracia e liberdade, mostrando que a revolução não terminou

Por Adriana Delorenzo* – 14/03/11

Após duas semanas da renúncia do ex-presidente Hosni Mubarak, no dia 25 de fevereiro, a Praça Tahrir, no centro do Cairo, principal palco da revolução no Egito, estava lotada. Neste dia, completava-se também um mês do início do processo que levou à queda do ditador, até então há 30 anos no poder. “Mubarak caiu, mas não significa que o sistema mudou”, disse Nour Kamel, publicitária de 23 anos.

Ela, assim como milhares de mulheres egípcias, participou ativamente dos 18 dias de protestos nas principais cidades do país. “Vim todos os dias à Praça Tahrir, o clima era de solidariedade e colaboração. Não vi qualquer violência contra as mulheres e fui tratada com respeito”, afirmou a jovem ativista. Nour voltou à Praça Tahrir somando-se aos outros milhares de manifestantes que reivindicavam a queda de todos os ministros empossados pelo Conselho Supremo Militar ligados ao Partido Nacional Democrático, de Mubarak, a suspensão imediata da Lei de Emergência, que permite à polícia prender qualquer pessoa, e melhores condições de vida. Eles pediam ainda que todos os policiais e políticos, que reprimiram os manifestantes fossem julgados, inclusive o ex-presidente, e que todos os presos políticos fossem soltos.

A repressão e brutalidade policial que sustentavam a ditadura de Mubarak, a crise econômica que atingia o país, o desemprego e a falta de perspectivas foram os motivos que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas no início da revolução. “Nosso país enfrenta muitos problemas econômicos, sociais e políticos”, sustentou Fatima Fowsi Al-Ali, estudante de Antropologia. “Por isso estamos aqui, não queremos continuar vivendo com 40% da população abaixo da linha de pobreza.”

Força popular
Fatima contou que ficou sabendo do protesto do dia 25 de janeiro pela comunidade do Facebook, “We are all Khaled Said” [Somos todos Khaled Said] e decidiu ir. A página foi criada pelo gerente do Google no Egito Wael Ghonin, após o assassinato de Khaled pela polícia em Alexandria. O jovem de 28 anos era suspeito de colocar vídeos denunciando a corrupção policial na internet. Ele foi brutalmente espancado pela polícia, que afirmou que ele portava drogas.

Em 25 de janeiro é celebrado o Dia da Polícia no Egito. “Como poderíamos comemorar o dia de uma polícia, que usava a violência contra nós?”, questionou a cientista política Laila Baza. Segundo ela, a corrupção dominava a corporação, que “pegava dinheiro extra do povo por qualquer coisa”. Hoje, com o Exército no controle do país, há desconfiança. Na madrugada de 26 de fevereiro, soldados usaram gás e cassetetes para dispersar manifestantes que permaneciam na Praça Tahrir.

Outros movimentos como o 6 de abril foram fundamentais para o processo de mudança que está colocado no Egito. O movimento nasceu em 2008 para apoiar greves de operários têxteis de Mahalla, no norte do país.

Nas ruas do Cairo, é possível presenciar diversos protestos de trabalhadores. Para Laila, o povo egípcio está em ebulição, começando a participar politicamente depois de 30 anos. “Nas ruas, todo mundo está discutindo.” Além disso, os egípcios manifestam solidariedade aos países vizinhos, cujos povos estão em luta contra ditadores, como a Líbia, Barhein, Iêmen, Argélia e Marrocos. As mulheres estão sempre presentes, a grande maioria de hijab, véu que cobre apenas a cabeça, ou de niqab, que permite apenas ver os olhos da mulher, e uma minoria, de burca, que cobre até os olhos.

*Free-lancer para o Sintrajud-SP. A jornalista esteve no Cairo após a queda de Mubarak