O Dia Mundial da Saúde, 7 de abril, foi criado em 1948 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar a população a respeito da qualidade de vida e dos diferentes fatores que afetam a saúde populacional. Em 2026, o tema é “Juntos pela ciência”, celebrando o poder da colaboração científica para proteger a saúde das pessoas, dos animais, das plantas e do planeta. Para marcar a data, o Sintrajusc solicitou artigo ao médico psiquiatra João Antônio Fortunati, mestrando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Confira:
Artigo: O trabalho e o sofrimento na contemporaneidade
Por João Antônio Fortunati, Médico Psiquiatra, Mestrando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS)

A relação entre trabalho e bem-estar tem se tornado um grande desafio para saúde pública, especialmente no âmbito psicológico. A explosão do número de afastamentos por transtornos mentais, as crescentes evidências sobre os impactos deletérios das reestruturações produtivas e os avanços recentes na legislação trabalhista brasileira impõem uma reflexão sobre os determinantes estruturais do sofrimento físico e psíquico no contexto laboral.
Uma revisão sistemática, Quinlan & Bole (2009) analisaram 86 estudos internacionais sobre os efeitos de reduções e reestruturações de pessoal – incluindo terceirização, home office, trabalho permanente em tempo parcial e emprego temporário. Os resultados apontaram que 85% dos estudos identificaram desfechos negativos em saúde ocupacional, utilizando uma variedade de indicadores como absenteísmo, adoecimento psíquico, queixas musculoesqueléticas e até mesmo mortalidade. Os autores identificaram três mecanismos principais associados ao adoecimento do trabalhador: intensificação do trabalho, desorganização e falha regulatória. A intensificação do trabalho refere-se à sobrecarga com múltiplas tarefas e metas, maior carga horária e desequilíbrio entre esforço e recompensa. A desorganização, por sua vez, se relaciona à dificuldade de comunicação entre trabalhadores e problemas estruturais, como supervisão inadequada e fragilização dos sistemas de gestão de saúde e segurança. A falha regulatória associa-se à dificuldade de manter padrões trabalhistas mínimos e precariedade nos mecanismos de monitoramento e fiscalização. Esses achados sugerem que o adoecimento relacionado ao trabalho está majoritariamente ligado a transformações organizacionais que submetem o trabalhador à lógica da produtividade a qualquer custo.
De acordo com o Ministério da Previdência Social, os afastamentos do trabalho por saúde mental vêm aumentando progressivamente, chegando a valores históricos em 2025, com 546.254 afastamentos, além de um aumento de 68% de 2023 para 2024. Especificamente sobre a Síndrome de Burnout (esgotamento profissional), houve um aumento de 493% entre 2021 e 2024. Os setores mais afetados por afastamentos, entre 2015 e 2024, foram a administração pública (14,9%), bancos múltiplos (14,8%) e atividades de atendimento hospitalar (8,9%).
O sociólogo Byung-Chul Han descreve o sujeito contemporâneo como pressionado à produtividade constante e à multitarefa. Esse processo gera autovigilância e autoexploração sob o ideal ilusório de liberdade. O trabalhador internaliza a culpa por não atingir a alta performance, e o sofrimento é individualizado, ocultando os fatores estruturais que o perpetuam. No nível macroestrutural, políticas públicas devem avaliar a redução da jornada de trabalho sem redução salarial como medida para combater a sobrecarga crônica, assim como o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a ampliação dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador. No âmbito organizacional, empresas e instituições podem adotar a gestão participativa, incluindo os trabalhadores na definição de metas, na tomada de decisões e na avaliação de riscos. Destaca-se também a promoção de segurança psicológica e a capacitação de trabalhadores e gestores para a identificação de discursos de gestão que naturalizam a exploração e o individualismo.
A atualização da NR-1 demonstra um avanço ao obrigar o empregador a identificar, avaliar e controlar fatores de risco psicossociais, como metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais e falta de autonomia no trabalho. Sendo assim, a fiscalização trabalhista efetiva se mostra fundamental para o cumprimento da NR-1 e a responsabilização por práticas como assédio organizacional e metas abusivas.
As evidências científicas e dados epidemiológicos apontam que o adoecimento relacionado ao trabalho deve ser entendido como fenômeno coletivo, não individual, decorrente das condições estruturais da organização produtiva contemporânea e capitalista. Sendo assim, são fundamentais a fiscalização trabalhista, o fortalecimento das políticas públicas de saúde do trabalhador e a transformação das práticas de gestão. Por fim, cabe ao indivíduo conhecer e exigir os seus direitos, articular-se coletivamente e buscar auxílio médico e/ou psicológico em caso de agravo da saúde mental.
Confira o vídeo do Médico Psiquiatra João Antônio Fortunati sobre o tema:
