Sintrafesc publica anúncio e responde as ofensas de Luiz Carlos Prates aos servidores públicos na RBS TV


O Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina – Sintrafesc – publicou hoje (10) no jornal Notícias do Dia, com circulação na Grande Florianópolis, uma resposta, em meia página, ao comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS TV. No Jornal do Almoço de 27 de maio, Prates classificou os cidadãos que fazem concurso para ingressar no serviço público como uma “legião de pífios, de gente sem iniciativa, sem coragem pessoal, gente que não se garante, que não tem personalidade, paixão, qualificação em nada”. Outras acusações ofensivas foram emitidas no telejornal de maior audiência em Santa Catarina. O Sintrafesc, além da resposta no jornal, encaminhou carta ao presidente do Grupo RBS, Nelson Pacheco Sirotsky (com cópia para outros dirigentes e para o próprio Prates), solicitando o mesmo espaço para que o Sindicato responda, na mesma emissora, as ofensas contra os servidores.
 
A resposta a Luiz Carlos Prates havia sido publicada na edição de ontem, mas por um erro do jornal, que imprimiu uma versão de texto preliminar, que não havia sido autorizado, o anúncio foi republicado, sem custos para o Sindicato, na edição desta quarta-feira.
 
Confira, a seguir, a resposta do Sintrafesc ao comentarista da RBS TV.
 
O Sintrafesc responde as ofensas de Luiz Carlos Prates aos servidores públicos
 
O Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina – Sintrafesc – em nome de todos os servidores públicos federais que representa, em mais de 40 órgãos, quer manifestar o seu mais veemente repúdio ao comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS TV,  pela maneira desrespeitosa de seu comentário no Jornal do Almoço do dia 27 de maio de 2009.
 
Dizer que concurso público, a forma mais democrática de acesso a um emprego, exige “apenas memória”, é de uma grosseria poucas vezes tornada pública. É desconhecer que, pela enorme relação candidato-vaga, são justamente cidadãos brasileiros altamente qualificados aqueles que obtêm acesso à profissão.
 
O que leva um profissional da comunicação a destilar tanto ódio, rancor e ignorância ao qualificar uma categoria profissional e os cidadãos que a  ela desejam ter acesso, pela via do mérito, pela via do concurso público? Para o comentarista da RBS, no entanto, trata-se de uma “legião de pífios, de gente sem iniciativa, sem coragem pessoal (…) gente que não se garante, que não tem personalidade, paixão, qualificação em nada.”
 
Isto não é uma crítica. É um amontoado de preconceitos, destituído de fatos, sem qualquer lógica. É uma ofensa desferida contra a dignidade de milhares de trabalhadores.
 
O Sintrafesc considera salutar e bem-vinda toda crítica que leve ao aperfeiçoamento da sociedade. Portanto, ela também pode e deve ser feita aos servidores ou ao serviço público quando não cumprem com a sua missão. Mas o Sindicato não pode aceitar a falta de respeito.
 
Seria de esperar que a RBS – que tanto apregoa valores e virtudes não só como empresa, mas também como empregadora – treinasse e orientasse seus profissionais para o uso legítimo do direito de opinião. Lamentavelmente, não é isso que costuma acontecer, com freqüência, com o Sr. Luiz Carlos Prates, profissional que confunde contundência com agressão, polêmica com discriminação e opinião com desrespeito.
 
A maior vítima de Luiz Carlos Prates, no entanto, não é o servidor público ou aquele que deseja exercer esta profissão. É a verdade.
 
É pelo interesse dos poderosos, ancorados na mídia, que mentiras repetidas à exaustão tentam ganhar foro de verdade. E são mitos como o de que o serviço público no Brasil não tem qualidade: tem e não tem, como também ocorre na iniciativa privada. Generalizar é faltar com a verdade, é manipular a opinião pública.
 
Há milhares de exemplos de competência profissional e dedicação à causa pública, levando serviços essenciais a milhões de brasileiros. A seguir, alguns deles, que foram divulgados na imprensa e que, mesmo assim, alguns comunicadores teimam em desconhecer:
 
1) A maior parte das pesquisas mais avançadas que se realizam no Brasil são feitas em universidades, laboratórios e fundações de caráter público. Nove das 10 melhores universidades brasileiras são públicas. O que há de melhor, inclusive quando é utilizado na iniciativa privada, em ciência e tecnologia, foi gestado na área pública.
 
2) Se a iniciativa privada é tão eficiente quanto Prates e outros apregoam, por que a maioria do eleitorado brasileiro (62%), é contra a privatização dos serviços públicos? Por que há tantos brasileiros que procuram os Procons e outras instâncias para reclamar de produtos e serviços que não funcionam?
 
3) É graças ao trabalho de vigilância do funcionalismo público que há menos riscos à saúde da população, em todos os espaços, da indústria aos supermercados. Do creme hidratante ao leite que você consome, tudo passa pela vigilância sanitária e pelo Ministério da Agricultura, por servidores públicos que zelam por sua saúde.
 
4) O Brasil possui o maior e mais moderno sistema eleitoral do mundo. O Tribunal Superior Eleitoral e seus tribunais regionais processam com segurança e rapidez 100% dos votos eletronicamente. Sistema que é reconhecido internacionalmente e já vem sendo exportado. É serviço público de qualidade, sim!
 
5) O Brasil possui um dos sistemas de declaração de Imposto de Renda mais modernos do planeta. Quase 100% das declarações são feitas pela internet. 
 
6) O maior programa de saúde pública do mundo – o SUS – se está longe de ser o ideal, também precisa ser exaltado por qualidades nem sempre lembradas pela população e muito menos pela mídia. Em hospitais e postos de saúde são atendidas, diariamente, 100 mil pessoas gratuitamente. São mais de 30 milhões de atendimentos num ano. Onde essa população, a maioria sem recursos, iria ser atendida se não houvesse uma rede pública de saúde? Há reclamações? Sim! Como há, também, em relação aos serviços prestados por planos privados de saúde, que cobram caro e nem sempre prestam atendimento de qualidade. Aliás, não raro, quando você mais precisa, descobre que determinados procedimentos não estão cobertos pelo plano.
 
7) Em 2003, pesquisa financiada pela Organização Mundial da Saúde revelou que os brasileiros que têm plano de saúde privado estão mais insatisfeitos com o atendimento que recebem do que aqueles que são atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Dos clientes de planos de saúde privados, 72% se disseram insatisfeitos contra 53,3% de insatisfação entre os pacientes do SUS. Claro, a mídia só mantém o foco nos problemas, raramente fala dos benefícios que a rede pública de saúde oferece à população.
 
8) O Brasil é o país que mais realiza transplantes gratuitos. Foram mais de 19 mil em 2008. Se dependesse da rede privada, milhares de brasileiros, das camadas mais pobres ou até mesmo da classe média, já estariam mortos, pois os custos de um transplante são altíssimos. A propósito, alguns dos melhores hospitais do país são públicos.
 
9) O Brasil tem a maior rede de leite materno no mundo. Coordenados pela Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao Ministério da Saúde, os 187 bancos de leite produziram 115 mil litros em 2007, que alimentaram 115.862 bebês gratuitamente. A Fundação Oswaldo Cruz foi escolhida como a melhor instituição de saúde pública do mundo.
 
10) O Brasil foi um dos 10 países escolhidos pela Organização Mundial de Saúde para pesquisar uma vacina para a gripe H1N1 (que ficou conhecida como “gripe suína”). O Instituto Butantan é referência mundial na produção de vacinas.
 
11) Por trás do discurso da eficiência privada se “esconde”, na maioria das vezes, o financiamento público, seja na atividade direta, seja na infraestrutura necessária ao funcionamento das empresas. Quando as empresas privadas se veem em apuros, a quem pedem ajuda? Aos governos, como está acontecendo, neste momento, com a crise econômica mundial. O sucesso de muitos empreendimentos privados também se faz às custas de vantagens como doação de terrenos públicos e implantação de infraestrutura com recursos governamentais, subvenções, reduções tributárias e outros tipos de garantias.
 
12) O Brasil é hoje uma potência agrícola internacional graças às pesquisas desenvolvidas por organismos públicos. Antes da criação da Embrapa, por exemplo, o Brasil importava até mesmo feijão e arroz. Hoje, com o apoio também de centros estaduais de pesquisa – públicos! – e do Ministério da Agricultura, a produção de grãos cresceu mais de 100 milhões de toneladas em 32 anos. Tudo isso obtido com investimentos públicos e a participação do setor privado. Mas a mídia só destaca os méritos da iniciativa privada.
 
13) É o serviço público que defende o trabalhador brasileiro da superexploração. São os fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego que libertaram, até hoje, mais de 30 mil brasileiros submetidos a trabalho escravo em fazendas de latifundiários. Foram os servidores públicos que retiraram, de 2003 a 2007, mais de 44 mil crianças do trabalho em todo o Brasil, garantindo a elas o direito constitucional à educação e a uma infância com dignidade.
 
14) A crítica da corrupção no serviço público quase nunca é contextualizada. Afinal, quem é o corruptor? Segundo a Transparência Internacional, empresas e grandes conglomerados financeiros transnacionais são os principais responsáveis por altos índices de corrupção nos países pobres do mundo.
 
15) Outra acusação falsa é a de que a máquina pública está “inchada”, que há excesso de servidores públicos. O Brasil tem um dos menores índices de servidores públicos por habitante. A relação no Brasil é de 5,6 servidores por 100 mil habitantes, enquanto na Alemanha é de 6,1. Nos Estados Unidos é de 9,8 e na Espanha 19,1. No Brasil, apenas 8% da mão-de-obra ocupada pertence ao Estado. Nos Estados Unidos são 18%, na Europa 25%, na Escandinávia 40%. Espanha e Portugal têm cerca de 20%. Como se explica tantos servidores públicos em países notadamente capitalistas? Porque os capitalistas desses países sabem que há uma relação entre qualidade de vida e servidores públicos para efetuar serviços essenciais à população. Mas a elite brasileira, infelizmente, nunca teve um projeto para incluir os milhões de brasileiros sem acesso a uma vida digna.
 
Todos esses trabalhadores do serviço público, responsáveis por esses e  outros exemplos que orgulham o Brasil e os brasileiros, trabalham com a mesma competência, a mesma paixão, a mesma coragem, a mesma vontade de outros trabalhadores da iniciativa privada, para que os brasileiros possam ter direito a uma vida mais digna. Porque trabalhadores com essas qualidades – ou sem – existem em todos os lugares, públicos ou privados.
 
Incompetência, Sr. Luiz Carlos Prates, é não saber disso.
 
Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina – Sintrafesc.