Reforma da Previdência atinge em cheio os serviços públicos, diz pesquisadora da UNICAMP


Por Marcela Cornelli

A reforma da Previdência afetará em cheio as universidades públicas brasileiras. Essa é a conclusão a que chegou a especialista em reumatologia e diretora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas (Unicamp), professora Lílian Tereza Lavras Costallat, ao ver cerca de 25 a 30% dos profissionais da área de saúde correrem para a aposentadoria com a ameaça da reforma da Previdência. Receosos de seu futuro quanto à aposentadoria, médicos, enfermeiros, cientistas da Unicamp e da área de saúde já estão procurando se aposentar rapidamente antes de ver a reforma ser aprovada no Senado.

A corrida pela aposentadoria, segundo Costallat, resultado da proposta de reforma da Previdência, abalou profundamente os médicos e cientistas – não só em Campinas, mas em todo o país -que atuam na universidade pública, os quais, em sua maioria, são responsáveis pela implantação de diversos projetos na área de saúde pública no país.

Segundo Costallat, eles são responsáveis pela implantação de numerosas políticas públicas de saúde, algumas com repercussão internacional. Muitos programas de saúde pública que hoje são adotados pelo Ministério da Saúde partiram de conceitos gerados dentro da universidade, como a prevenção do câncer de colo uterino, o câncer de mama, a prevenção à cegueira com o projeto de combate à catarata, o controle de saúde mental, o programa de saúde da criança e tantos outros, bem como os protocolos de diagnósticos e de tratamento que modificaram a história da saúde no Brasil.

Os hospitais universitários, apesar do sucateamento promovido pelos diversos governos federais, ainda são o refúgio de pacientes que os municípios, os estados e a própria União não podem nem têm condições de acolher. Isso sem contar o Sistema Único de Saúde (SUS), que apesar das deficiências é a salvação de quase toda a população brasileira. Esses programas concebidos e desenvolvidos por médicos, cientistas, enfer­meiros, todos funcionários públicos que trabalham em regime de dedicação exclusiva e integral à docência e à pesquisa, com a reforma da Previdência, correm sérios riscos de morrer à mingua nas mãos de profissionais em início de carreira e inexperientes.

Perder profissionais como esses, segundo Costallat, refletirá a médio e a longo prazos na saúde de todos os brasileiros. “O nosso papel na universidade é também o de formadores de médicos, enfermeiros e de outros profissionais da saúde comprometidos com o mesmo propósito: o de acreditar e lutar pelo SUS, não obstante o atual sucateamento e endividamento dos hospitais universitários brasileiros, que estão praticamente falidos”, afirma.

A Unicamp, por exemplo, é a única universidade que atende exclusivamente o SUS na região metropolitana de Campinas, em São Paulo, sul de Minas Gerais e norte do Paraná. É no hospital universitário da Unicamp que os pacientes dessas regiões são atendidos e os alunos da área de saúde têm uma inserção precoce nas unidades básicas de saúde para que compreendam como funciona a hierarquização do sistema a fim de entender seu papel humanista de sua formação acadêmica e profissional.

Fonte: CNESF