Pesquisadora propõe estratégia global para superar neoliberalismo


Em Palavras Andantes, livro de 1994, o escritor uruguaio Eduardo Galeano reproduz uma frase anônima cravada em uma parede em Quito (Equador). “Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas”. A sabedoria contida na inscrição popular foi citada para sensibilizar os participantes da cerimônia de abertura de uma jornada dupla de eventos que reúne alguns dos principais intelectuais e entidades de pesquisa acadêmica do continente. A partir deste domingo (20), o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) promove na capital fluminense a IV Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais que será seguida pela XXII Assembléia Geral Ordinária da Clacso.
A inspiração vinda das ruas foi aprofundada na auto-avaliação provocativa ditada pela pesquisadora britânica Hilary Wainwright, da Universidade de Manchester e da London School of Economics (ambas na Inglaterra), e do Instituto Transacional, de Amsterdã (Holanda) e editora da revista Red Pepper. Diante da força e do alcance da globalização neoliberal, a britânica defendeu o aprofundamento do diálogo e a troca mais intensa de experiências para globalizar a organização política, envolvendo acadêmicos, movimentos sociais e atores de partidos políticos de países ricos e pobres.
São vários os exemplos de reações ao desgastado do modelo neoliberal no mundo – tanto em manifestações fora de instituições quanto em mandatos populares (como no “giro à esquerda” na América Latina) que questionam o sistema marcado pelo imperialismo representado pelos EUA. Mas quanto o primeiro-ministro da ala de esquerda Romano Prodi (que venceu as eleições e assumiu este ano na Itália) conhece realmente da experiência brasileira dos primeiros três anos e meio do governo Lula e do PT no poder, por exemplo? O que os manifestantes que foram às ruas contra a supressão de direitos na França sabem e absorveram do processo de protagonismo indígena em curso na Bolívia? Durante a sua apresentação, Hilary – que também participou ela própria da administração anterior do atual prefeito de Londres, Ken Livingstone, no início dos anos 80 – colocou alguns dos pontos centrais para esse diálogo: reexame da questão da representatividade (relação entre cidadãos e Estado) e das campanhas eleitorais (cada vez mais voltadas apenas para a vitória nas urnas), a busca de políticas públicas que aproximem instituições oficiais e movimentos sociais, e o desenvolvimento de meios sustentáveis e permanentes de manter essa relação, sustentados por uma ampla aliança transnacional.
A prevalência da relação comercial nas relações internacionais, lembrou a pesquisadora, não é natural. Para ela, o colapso da Organização Mundial do Comércio (OMC) não deixa de ser a legitimação da própria incapacidade do liberalismo por ele mesmo.
O secretário executivo da Clacso, Atilio Boron, pontuou, durante a abertura, o pesado legado dos projetos neoliberais que assolam o continente há 25 anos: sociedade mais injusta, economias mais vulneráveis e democracias mais frágeis. “Somos habitantes da região mais injusta do mundo”, enfatizou. “Nosso trabalho não pode ser desligado dessa lamentável realidade”, concluiu, em sua defesa de vínculos fecundos do trabalho intelectual com sujeitos locais.
“Não estamos condenados a isso”, adicionou Boron. As discussões dos eventos promovidos foram definidas pela pró-reitora de graduação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Raquel Villardi, como parte da “luta contra todas as formas de impedir alternativas” e da “crença na efetividade da ação humana”. A escolha do Brasil como sede dos encontros, de acordo com o secretário-executivo da Clacso, foi um reconhecimento ao Brasil, berço de alguns nomes dos mais importantes para as ciências sociais da América Latina e do Caribe: Florestan Fernandes, Paulo Freire e Octavio Ianni, que inclusive recebeu uma homenagem especial.
Ana Clara Torres, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ) relembrou a história pessoal de Ianni, nascido em Itu, no interior de São Paulo, e autor de 30 livros com análises socioestruturais sobre a interação do Brasil com o mundo. O sociólogo que nos ensinou que “o mundo é o espaço de todos, e não apenas lugar” foi um radical, recordou Ana Clara, dotado da “radicalidade daqueles que acreditam no que estão fazendo”. Também foi homenageado o haitiano Gérard Pierre-Charles, que conjugou o trabalho acadêmico com a militância política no Partido Comunista.

Informações

Com o tema “Heranças, Crises e Alternativas ao Neoliberalismo”, as atividades da IV Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais serão realizadas até sexta-feira (25) (Confira programação aberta ao público). A XXII Assembléia Geral Ordinária do Clacso, que elegerá a nova diretoria da entidade, serão realizadas na quarta (23) e quinta (24). A instituição internacional não-governamental agrupa mais de 170 centros de pesquisa e programas de pós-graduação em ciências sociais em 21 países da região e patrocina bolsas de estudo e mantém um campus virtual e um observatório social, entre outras linhas de ação.

Fonte: Agência Carta Maior