O mapa do poder no novo Congresso


Autor do levantamento sobre os mais influentes do Congresso, diretor do Diap aponta 24 petistas entre os 100 possíveis “Cabeças” da próxima legislatura

Edson Sardinha*

Depois de surpreender nas urnas, fazendo a segunda maior bancada da nova Câmara e recebendo o maior número de votos para deputados, o PT já desponta como favorito para comandar a relação dos parlamentares mais influentes do Congresso. Projeção feita, a pedido do Congresso em Foco, pelo diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz, responsável pela publicação anual “Os Cabeças do Congresso”, inclui 24 petistas entre os 100 parlamentares com maior potencial de influência no novo Congresso.
Fazem parte da lista 28 congressistas recém-eleitos, alguns debutando e outros retornando à Casa, além dos 72 que estão no exercício do mandato. Entre os que voltam a Brasília e aparecem na lista, gente que já desfrutou de grande poder mas que naufragou após escândalos políticos. Exemplo é o ex-prefeito da capital paulista Paulo Maluf (PP-SP) e o ex-presidente da Câmara Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Apesar de ter sido cassado em 1994, Ibsen deu a volta por cima ao comprovar sua inocência no caso dos “anões do Orçamento”. Já Maluf segue atolado em processos rumorosos na Justiça.
Na projeção do diretor do Diap, aparecem petistas que não faltaram a nenhum dos levantamentos feitos pela entidade nos últimos quatro anos. É o caso de Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Aloizio Mercadante (PT-SP). Mas também figuram recém-eleitos, como o ex-ministro Antonio Palocci (PT-SP) e Sérgio Carneiro (PT-BA), filho do senador eleito pela Bahia Durval Carneiro (PDT) e irmão do prefeito de Salvador, João Henrique.

Palocci e Genoino

A avaliação de Antonio Augusto é de que Palocci começará sua atuação de forma tímida, mas se converterá em importante interlocutor do partido a partir do segundo semestre. Ao contrário de outro petista que retorna após ter seu nome envolvido em escândalo: José Genoino (SP). “Genoino precisará de mais tempo para se livrar da imagem do mensalão”, prevê.
Segundo o diretor do Diap, PFL e PSDB terão mais dificuldade na renovação de suas lideranças. Na avaliação dele, o PT sentirá menos o efeito da ausência de parlamentares ilustres que não conseguiram se reeleger, como Antonio Carlos Biscaia (RJ), Sigmaringa Seixas (DF) e Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), do que PFL e PSDB de nomes como Jorge Bornhausen (PFL-SC), Alberto Goldman (PSDB-SP) e José Thomaz Nonô (PFL-AL), que não retornam em 2007.

Na pendência do 2º turno

“Isso ficará mais claro se Lula for reeleito. Se Geraldo Alckmin ganhar, alguns tucanos podem despontar também”, observa. Com 18 nomes, o PFL é o segundo partido com o maior número de parlamentares favoritos para dar as cartas no Congresso em 2007. A influência dos pefelistas será sentida principalmente no Senado, onde devem indicar o próximo presidente da Casa. Além disso, sete senadores do partido integram a lista dos potenciais mais influentes. Dois recém-eleitos, os deputados Cássio Taniguchi (PR), ex-prefeito de Curitiba, e Paulo Bornhausen (SC), filho do presidente do partido, também estão nela.
“A correlação de forças no Senado para 2007 ainda não está definida. Vai depender do resultado do segundo turno. Como sempre, os partidos da base governista devem sofrer um inchaço”, afirma Antonio Augusto. Outra dificuldade a ser enfrentada por Lula, segundo o analista político, está no enfraquecimento do senador Aloizio Mercadante em decorrência do escândalo do dossiê. “Ele não tem condições mais de ser interlocutor do governo com o PSDB”, considera.

PMDB e PSDB

Dono da maior bancada no Congresso, o PMDB empresta 15 nomes à lista dos potencialmente mais influentes. A relação dos peemedebistas vai desde Michel Temer (SP), Jader Barbalho (PA) e Pedro Simon (RS) – velhos conhecidos do Diap -, passa por veteranos recém-eleitos, como Jarbas Vasconcelos (PE) e Joaquim Roriz (DF), até chegar a uma incógnita: o deputado Pudim (RJ), eleito com a segunda maior votação no Rio, com 272.457 votos, no embalo do casal Garotinho.
Na expectativa de ser o partido do próximo presidente da República, o PSDB tentará compensar a ausência de ex-lideranças como Alberto Goldman, eleito vice-governador em São Paulo, e Eduardo Paes, que perdeu a disputa ao governo do Rio, com a chegada do ex-ministro Paulo Renato Souza (SP), na Câmara, e do ex-governador Marconi Perillo (GO), o mais novo campeão de votos no Senado. Na projeção de Antonio Augusto, pelo menos 12 tucanos serão decisivos no início da próxima legislatura. No último balanço divulgado pela entidade, em junho, havia 14 representantes do PSDB.

Ciro em alta

O PSB, citado sete vezes na última edição de “Os Cabeças do Congresso”, deve ganhar mais duas lideranças de peso: o ex-ministro Ciro Gomes (CE) e Ana Arraes (PE), filha do ex-governador Miguel Arraes e mãe do atual presidente da legenda, o ex-deputado Eduardo Campos, candidato a governador de Pernambuco. Ciro se projeta como figura-chave no eventual segundo governo Lula, depois da queda do chamado núcleo duro petista. Um ministério mais robusto ou a liderança do governo na Câmara são duas possibilidades aventadas.
Bancadas menores também contribuem com a relação dos 100 prováveis mais influentes do novo Congresso: o PPS (5), o PCdoB (4), o PDT (3), o PTB (3), o PL (2), o PP (2), o PV (1), o Psol (1) e o PRTB (1), com o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Depois de declarar voto em Lula e voltar a Brasília com votação expressiva, Collor tenta se credenciar como possível interlocutor do próximo governo.

Jogo de xadrez

Para o cientista político Octaciano Nogueira, o poder de fogo das lideranças políticas do novo Congresso só poderá ser medido com precisão após o segundo turno da eleição presidencial. “Só então saberemos quem são os jogadores, e o jogo que eles jogarão: se na oposição ou na situação”. Como exemplo da importância dessa relação, ele cita o caso do senador José Sarney (PMDB-AP): “Se o Lula ganhar, Sarney terá mais poder, por ter apoiado o primeiro governo. Se der Alckmin, o ex-presidente tende a perder espaço”.

Crise institucional

A definição do seleto grupo dos parlamentares que dará as cartas no Congresso torna-se ainda mais importante, segundo o cientista político Paulo Kramer, à medida que o presidente Lula sofre ameaças de não concluir o eventual segundo mandato por causa do escândalo do dossiê. A oposição já sinaliza com pedido de impeachment caso Lula se reeleja no próximo dia 29. “As verdadeiras lideranças do Congresso, que geralmente não passam de 50 nomes, são fundamentais toda vez que surge um desafio institucional. Foi isso que ocorreu nos governos Getúlio Vargas, Jânio Quadros, João Goulart e Collor. Esse pessoal se junta e sai com uma solução”, diz o professor.
Para Kramer, não deve haver grande rodízio entre os parlamentares mais influentes porque, apesar da renovação de metade dos congressistas, o perfil dos novos representantes do próximo Congresso é o mesmo do atual. “O eleitor brasileiro se vinga a cada quatro anos do voto dado na eleição anterior. Mas se vinga votando em parlamentares com as mesmas características. Mais uma vez teremos um Congresso retroativo, que funciona como reação ao Executivo”, prevê.

*Editor do portal Congresso em Foco

Fonte: Agência Diap